quinta-feira, 24 de maio de 2012

Meio-dia e meio.

Estava sonolenta mas o sol apontava meio-dia. Dia e meio. O céu azul manchado de nuvens acinzentadas, que se escureciam na medida em que os respingos de chuva rarefeita se densificava. A toalha e a roupa branca no varal se molharam depois de secas.  A radio só tocava Jovem Pan e a TV estava sem sinal, sem nenhum canal. Na geladeira tinha arroz mas não tinha feijão e nem ovo. E os livros empoeirados da prateleira apodreciam porque ninguém os lia, e nem curiosidade havia. O chuveiro queimou, a hora do banho atrasou mas a cama me convidou para estender-me sobre o que me conforta, fechar os olhos e acordar quando o sol raiar, quando a chuva acabar. Arco-íris... Será que teria?

Júlia Rena

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Um sopro de vida

Fazer de mim margem do mundo.
Afinal, o que mais fazer de mim, se não doar-me ao que é vivo? Visualizar a vida como uma grande explosão plena, variada e contínua, e visualizar o mundo como as vezes achamos ser a vida, pequena e temporária. E o eu, só como mais uma poeira que aos poucos é levada pelo o vento, que se acumula, se espalha e multiplica.

Júlia Rena

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"À flor da pele"

Transformar meus sentimentos em versos, estrofes e palavras não me da gosto.
Esse pequeno desabrochar de alívio não me conforta, tão ilusório que me faz lembrar o cheiro forte de álcool que queima a garganta.
Ter brilho maior aos olhos, é o meu maior querer, não essa palidez que entristece, esse tom heterogênio, de castanho com cinza. que vira essa cor, cor de bosta.
Não estou com raiva, é que hoje os sentimentos transbordam-me o corpo, por isso a vontade tola de escrever; faço das palavras a minha dose de cachaça.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Nem aí

Tenha amor o suficiente para distribuir tais petálas. Livre-se do seu bom humor se ele não é verdadeiro. Do bom gosto se isso da desgosto. Se desfaça do seu lado crítico, se ele te acorrenta a uma opinião quadrada. Livre-se da lógica se não dá brilho aos olhos, se não deixa cor na boca, se não enfeita o mundo, e seja a incógnita que dança na poça, que canta na chuva, que beija o absurdo. Mande um alô pro outro alguém, e tchau e bênção pra quem não tem.


Júlia Rena


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"Brincando de ser e estar"

Brincando de desenhar com as cores um pássaro pintou,
Estrada de manteiga escorregou,
untando a forma, fazendo farinha,
No céu gergelim de gotas estreladas e um sorriso meia lua, imeia.
Um esvoaçante pé dançante, que não parava de mover, para lá, e para cá.
Um coração pulsante que bem dizendo, queria amar.
Mãos para o alto, prateleiras ao alcance.
Porém, minha vida ali de baixo não queria ser morna, abandonada em prateleiras.

Brincando de desenhar, um pássaro a voar se pintou,
Estradas de caminhos se formou,
esquentando a farinha, mastigando o pão,
No céu gotas de água salgada e nuvens carregadas com um arco íris no papel.
Um pé pisante, dançante, sapateado ou balé.
Um coração pulsante que bem dizendo, era tudo e nada.
Mão para o alto, prateleiras ao alcance.
Olhos sorridentes, uma curva formava com a cova relativamente estreita de meus olhos juntamente ao mundo que gira, que gira, girou.

Júlia Rena

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Parto-me



Cresce um mundo na medida em que meus olhos anseiam ver.
Nasce um ser na medida em que vem esse querer.
Parto;
Para longe, deixando ou levando um pouco de mim.

O parto ocorre.

Open your eyes - Escuto vozes.


Tenho medo,
é tudo estranho
tenho lágrimas nos olhos,
e gritos de recem chegada na garganta,
desconfio,

mas logo me asseguro nos braços da maternidade que me acaricia e me acolhe com amor, disponibilizando leite como fonte de alimento e colo como longa moradia. E essa segurança me traz tal confiança que me faz querer ir. Com seus sábios ensinamentos, ensina-me a viver. Fortalecendo e desafiando minhas pernas para que eu possa enfim andar e meus braços para que um dia eu possa trabalhar e construir os meus propios abrigos. E o desejo aumenta no ritmo do meu coração, na medida em que ele pulsa me trazendo vida. E assim serei, filhote do mundo, em constante aprendizagem, ate que um dia tudo acabe dentro de nos.

 

Open your eyes! Can you see? - O mundo sopra em meus ouvidos.

Júlia Rena

Disfarces (?)

Não sei, mas o tempo me parece inquieto e este hálito ruim refresca-me a mente,
e o que e palpável quase não me aquece mais.
Brilho os dentes, e rasgo os lábios, o tempo é seco.
Brilho os olhos, que umidece a face,  que expõe os traços.
Paladar, tato, visão e olfato, sentidos disfarçados.
Coração pulssante, sinto minha veia.




Júlia Rena